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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O BBB e o cordel

Recebi um emeio essa semana de uma professora de arte-educação. Tratava-se de um cordel cujo tema é, no mínimo, perturbador: Big Brother Brasil, um programa imbecil. Constava o endereço do blogue de seu autor. Decidi ver o blogue e observar alguns comentários.

Realmente o texto é o que o título dá a entender – um ataque feroz ao BBB. Como não assisto ao programa (aliás, não o suporto), não posso nem afirmar nem denegar alguns dos ataques a ele feitos no cordel (coisas relativas propriamente ao programa), mas posso, e isso farei, analisar alguns pontos que considero críticos na análise feita por seu autor.

Em primeiro lugar, o autor ainda trabalha com a noção de alienação, sem problematizá-lo: “Que além de alienar / Vai por certo atrofiar / A mente do brasileiro.” Não estou aqui dizendo que não existem pessoas alienadas, mas fico a me perguntar se essa alienação não é, de certa forma, voluntária. Não tenho a pretensão de ter a resposta a essa questão, mas aí vai ela: Não seria possível, ao invés de considerar a população como vítimas do BBB, tal qual faz o cordelista, pensá-la como tomando de maneira consciente a decisão de assistir a esse programa? Nesse caso, o problema seria pensar o porquê dessa escolha, sem necessariamente condená-la.

Outra noção também bastante problemática é a de evolução. Parte de uma visão muito linear da história e da educação (“Me refiro ao brasileiro / Que está em formação / E precisa evoluir / Através da Educação”). E ainda levanta outra questão: Só a evolução que ele pretende é boa? Não pode haver outras formas de evolução? Bem entendido: não trabalho com a idéia de evolução.

Outro problema: o autor diz que a família está longe da realidade, ao assistir ao BBB. Pois bem, é preciso esclarecer a idéia de realidade presente nessa afirmação. A que realidade ele se refere? Não há realidade em um grupo de pessoas se isolarem numa casa? Embora esse não seja a idéia exata de realidade com que trabalho, essas pessoas não estão realmente lá? E isso, quer queiramos quer não, não faz parte de nossa realidade? Se o cordelista deseja que outra realidade seja observada, pois bem, mas daí a dizer que essas pessoas estão fora da realidade, vai uma boa caminhada.

Agora, o que me parece uma demonstração muito evidente de sentimento de superioridade:

“Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.”

Parece-me muita pretensão querer considerar que a maioria é burra e demente e que uma pequena elite intelectual precisa tomar as rédeas da situação e resolvê-la.

Eu acho que já ficou claro em vários textos desse blogue que não morro de amores pela Rede Globo. E reafirmo que não suporto o programa em questão. Mas não se pode basear uma crítica em argumentos tão pouco válidos. Aliás, a posição em que o autor (intencionalmente, ou não) acaba se colocando é bastante parecida com a posição em que a própria Globo se coloca: como detentor de um saber – logo, de um poder – e como superior aos mortais que, emburrecidos, não podem decidir o que querem ver, apenas deglutem o que lhes é ofertado. Não sou assim, da mesma forma que acredito que o autor do cordel em questão não seja, mas, diferentemente dele, não acho lá muito humilde nem realista pensar que todas as outras pessoas sejam.

Se quiserem ler todo o cordel o endereço é:

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

(DES)ENGANOS EM SÉRIE

Semana passada, assisti a um episódio do documentário seriado Lutas.doc, exibido pela TV Brasil. O assunto girou em torno de como a televisão acomoda as pessoas com relação a sua própria condição social. Várias personalidades deram sua opinião e todas elas pareceram concordar em alguns pontos: a televisão é enganosa, não mostra a realidade e, do modo como é feita contemporaneamente, é nociva.

É claro que a TV, do modo como se apresenta, está longe de me agradar, conforme mostram os outros textos desse blogue. Mas pareceu-me que muito mais enganosa que a televisão são as bases em que foram desenvolvidas as críticas feitas no documentário. Vejamos, então: vamos pensar na noção de realidade.

Muitas tentativas foram feitas de se responder à questão básica: “O que é realidade?” Entretanto, parece-me um grande engano considerar o que chamo de “realidade real”, também chamado “realidade objetiva” (o que acarretaria outros problemas: o que é objetividade? É ela possível), como a única realidade possível, ou como a única realidade que realmente importa. Por que, afinal de contas, nem mesmo essa realidade pode se dar a conhecer sem as ficcionalizações proporcionadas pelos nossos sentidos. Explico: todo mundo já ouviu falar em ilusão de ótica. Pois bem, esse é talvez o exemplo mais claro para demonstrar que nossos sentidos não dão conta da realidade como ela é, mas que eles mesmos são formas de ficcionalizar uma realidade. Pensar nesses termos desloca a importância da realidade dita objetiva. (É claro que a questão vai muito além do que expus acima. Mas acredito que, para um texto curto como esse, sejam suficientes essas considerações.)

Daí, surge a pergunta: como se poderia mostrar “a realidade” através da TV, um meio de comunicação que está repleto de ficcionalizações? Se a câmera é posicionada desta ou daquela forma, pode resultar em diferentes interpretações do mesmo fato. Depois há o diretor, o editor, os apresentadores, os atores, cada qual com suas próprias ficcionalizações – intencionais ou não. E, por fim, há as ficcionalizações dos telespectadores. O conceito de realidade se dilui e não faz mais sentido.

Não quero com isso dizer que se deve aceitar a TV como está. Mas as nossas críticas precisam estar bem fundadas, e não ser baseadas em chavões como “Hollywood está se especializando em fazer o mesmo filme, a história sempre se repete” ou “a televisão provoca uma alienação nas pessoas” ou, pior ainda, “as pessoas precisam ser ajudadas...”. Talvez fosse mais interessante pensar em como a televisão engendra novas formas de pensar ou como ela se adequa a esses novos modelos de pensamento, em que o interesse se volta quase que exclusivamente para realidade ficcional. E daí pensar nos efeitos disso na sociedade e no homem. Aí, sim, talvez possamos tentar pensar em como trazer esse interesse para outras realidades. Mesmo assim ainda fica a pergunta: Para quê?

terça-feira, 28 de julho de 2009

Boris casoy ataca o sistema de cotas

Ontem à noite fomos premiados com mais um comentário no mínimo discutível de Boris Casoy. No jornal que apresenta na Band, Casoy se colocou contra as cotas étnicas e sociais por considerá-las uma injustiça para com aqueles que têm o que ele chamou de “mérito” que, ainda segundo o âncora, se prepararam melhor. Sou obrigado a concordar que o sistema de cotas sociais e étnicas realmente rompe com certa meritocracia, mas não posso encarar isso como sendo negativo.

Em primeiro lugar, o sistema de cotas sociais é uma necessidade devido à deficiência gritante do ensino público brasileiro. É a solução para o problema? De fato, não e não pretendo que seja. Porém não podemos deixar de encarar a questão das cotas como uma estratégia de gestão de crise, e não como solução. As pessoas que estudaram em escolas públicas não podem esperar até que a defasagem da educação seja solucionada para ingressar num curso superior. Há necessidades prementes que precisam ser atendidas até que o problema seja devidamente solucionado.

A questão das cotas étnicas é diferente, mas não muito. Ressalto que a relação entre o étnico e o social no Brasil é muito complexa. O histórico de escravidão e de posterior abandono das pessoas negras e seus descendentes à própria sorte, numa sociedade com um tipo de preconceito dificílimo de lidar (o preconceito de não ter preconceito, de acordo com Florestan Fernandes) acabou gerando uma população de afro-descendentes subempregados e pertencentes às camadas socialmente inferiores. Se é fato que há vários afro-descendentes nas classes médias e altas da população, também é fato que os há em muito maior número entre as camadas inferiores. Assim, a validade das cotas étnicas acaba se estabelecendo por motivos parecidos aos explicitados no parágrafo anterior. Trata-se de gestão de crise.

E já que citei a questão da escravidão, o sistema de cotas trata-se também de uma tentativa de sanar a dívida histórica da sociedade para com os negros e mestiços, além dos povos indígenas.

Assim, um comunicador e jornalista do calibre de Boris Casoy precisa estar mais atento às questões envolvidas neste problema antes de repudiar o sistema de cotas publicamente como fez ontem, especialmente pela apresentação de motivos como a defesa (ainda) do “mérito”.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ainda os especiais de natal

Sei que esse texto está um pouco atrasado. Ele foi escrito em 24/12/2008, mas aí vai:

É natal. É tempo de falar dos especiais de Natal. Deixarei um pouco de lado o fato de que a maior emissora do país oscila entre a mesmice de Roberto Carlos e a completa maluquice de Nada Fofa para me debruçar sobre um problema mais específico: o especial "O Natal do Menino Imperador". Passa-se, o citado especial, na época pré Segundo Reinado. Trata-se da fictícia história da "amizade" entre o jovem futuro imperador Pedro II e um escravo. Foi feito para ser tocante, emocionante, "uma lição de amizade", dizia o anúncio.

Amizade? Creio que a relação mostrada no especial é assimétrica demais para se chamar de amizade. Uma das últimas cenas, a que analisarei aqui, revela isso muito claramente. Nela, Pedro II e seu amigo-escravo (com ambiguidade e tudo) trocam presentes. O presente do imperadorzinho para seu amigo é um par de sapatos. Ora, se os escravos não poderiam usar sapatos, o presente de Pedro para seu "amigo" é nada menos que a liberdade.

Pois bem, numa relação simétrica como a amizade esse tipo de presente não é permitido, ao menos não como presente. Tratar-se-ia da reparação de uma injustiça - a escravidão - e não de uma dádiva. O efeito é o tão repetido, tão reafirmado e assimilado mito da bondade do branco. O menino branco é o bondoso libertador do menino negro. Sob sua égide está a vida de um garoto de quem ele diz ser amigo. E a cena final do especial não ajuda questionar isso. Acontece (meu Deus, ainda?) a mera repetição do mesmo chavão batido. Como se liberdade não fosse um direito inalienável do ser humano.

E como se libertar alguém não fosse uma forma de oprimi-lo. Ao invés de pôr em cheque a versão oficial com respeito à relação entre brancos e negros no período escravista, o especial da Globo reforça essa versão. E o que é pior: disfarça esse reforço com uma pele de questionamento. É uma tentativa de parecer um índice de deslocamento da história oficial quando, na verdade, não passa de uma estratégia de manutenção dessa mesma história. Em uma palavra: um embuste.

sábado, 29 de novembro de 2008

A PERPETUAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS NA MÍDIA INFANTO-JUVENIL: A TV XUXA

1. INTRODUÇÃO

Esse é um trabalho escrito sob urgência. Uma urgência de falar, de escrever e de ser ouvido. Ao contrário de Fanon, o que queimava em mim precisou precisava ser dito o quanto antes. E eu disse. Depois, com mais calma, mas ainda em queimação eu reescrevi. Mas as marcas da pressa e da urgência continuam por aí. Peço desculpas, aliás, não peço não. Que a leitura deste seja instigante e perturbadora.

2. A PERPETUAÇÃO DE ESTEREÓTIPOS NA MÍDIA INFANTO-JUVENIL: A TV XUXA

Infeliz. Eis como considero a apresentação da dupla "As absorventes" no concurso de paródias da TV Xuxa do sábado, quatro de outubro de 2008. A paródia por elas apresentada baseou-se na música Trem das Onze e intitulava-se Cheiro de Asa. Como foi exaustivamente repetido após a apresentação das meninas, elas são boas comediantes. A paródia foi bem feita. A intenção da apresentação foi humorística. E elas são excelentes atrizes. Mas não posso deixar de fazer uma ressalva, aliás, da maior pertinência: a repetição de estereótipos com respeito à representação do negro.

Uma das garotas aparece pintada de preto, com a boca excessivamente vermelha e uma peruca de cabelos desgrenhados. É a síntese da ridícula representação do negro perpetrada e perpetuada no decorrer dos séculos: a “nega maluca”. Esse tipo de figura padroniza e coisifica a etnia. O curioso é que não há nada na letra da paródia por elas criada que justifique o uso de blackface. Foi uma escolha muito infeliz, mas que talvez revele um imaginário que perpassa nossa mente e nosso discurso e talvez nem percebamos.
Trata-se da estigmatização, a identidade virtual que gera estereótipos, como diz Muniz Sodré, depois de falar da identidade social real e da identidade social virtual:


"Na passagem do potencial/virtual para o real/atual, surge o estigma, a marca da desqualificação da diferença, ponto de partida para todo tipo de discriminação, consciente ou não, do outro. [...] Da identidade virtual nascem os estereótipos e as folclorizações em torno do individuo de pele escura." (SODRÉ, 1999 p. 246)


De especial interesse é a expressão “consciente ou não”. Asseverar que a discriminação pode ou não ser consciente tem implicações interessantes num país em que a maioria das pessoas diz haver racismo, mas, ao mesmo tempo, afirma não ser preconceituosa. Quer dizer, ou as pessoas estão com a impressão errada do Brasil (hipótese, aliás, facilmente descartável), ou algumas (muitas?) são preconceituosas sem o saber. Aí reside, a meu ver, o perigo de representações como as veiculadas no programa que analiso aqui. Elas naturalizam representações estereotipadas que acabam fazendo parte do imaginário sem que as pessoas se dêem conta disso. E, talvez ainda pior, promovem “a internalização pelo indivíduo escuro de imagens negativas sobre si mesmo”. (Id. Ibid. p. 235)

Para piorar ainda mais as coisas, acrescento à minha análise dois elementos: a representação masculina e a própria paródia. Pensando tudo isso como um único conjunto, temos uma negra (estereotipada até o limite, conforme explanei acima) sendo detratada e tendo atribuídas a si características negativas (odores desagradáveis nas axilas, flatos) por um homem de pele clara. Em outras palavras, a mulher negra sendo maltratada pelo homem branco. (Não sei, mas isso se parece muito com uma situação que deveria ter sido extinta em 13 de maio de 1988). Vimos ainda, em resultado da escolha dos personagens a ser representados, o homem branco como aquele que traz "civilidade" (é ele quem aconselha: use talco pra chulé). E mais uma vez todas as qualidades negativas são atribuídas ao negro. Parece que os idealizadores da apresentação ainda não se deram conta do que diz Sir Alain Burns, citado por Frantz Fanon em Pele negra máscaras brancas: “Não podemos [...] considerar como cientificamente estabelecida a teoria segundo a qual o homem negro seria inferior ao homem branco [...]” (2008 p.43, 44).

Destaco também o paulatino apagamento da voz feminina e negra. Não lhe é dado falar, uma vez que sua voz é considerada como sem importância, o que apenas reforça o processo de coisificação, já aludido. A fala pertence apenas à representação masculina e branca. Não há direito de defesa. (Em certo sentido, ainda bem, já que, se considerarmos o conjunto apresentado, a única representação verbal que poderíamos esperar da personagem negra seria o caricatural português "estropiado", cheio de sons guturais, como é comum em estereótipos desse tipo).
Duas semanas se passaram e “As absorventes” fizeram outra apresentação na TV Xuxa.

3. NUM OUTRO SÁBADO

Duas semanas depois da apresentação analisada acima, a mesma dupla, “As absorventes”, apresentou-se novamente na TV Xuxa. Dessa vez, a apresentação foi um pouco diferente e se pretendia menos problemática. A música parodiada foi Meu ébano, de Alcione. Novamente foi usado o blackface, mas, neste caso, o recurso se “justificaria” pela letra da paródia, já que os personagens se tratam por “nega” e “negão”. Também, a maquiagem usada nesse blackface é mais naturalizada, tentando se aproximar dum tom de pele mulato (duas semanas antes uma das mulheres havia sido pintada de preto, tipo cor de piche). Neste caso, é a mulher que fala quase o tempo todo e o homem tem a oportunidade de se defender. Assim a voz não fica restrita a apenas uma das figuras.

Mesmo assim, ainda há graves problemas nessa representação. Se, por um lado, é certo que a maioria dos habitantes das favelas no Brasil são afro-descendentes, também é certo que o tipo de representação promovido pelas “absorventes” não ajuda em nada a desconstruir estereótipos quanto a isso. Vejamos, pois: a mulher reclama que paga as contas ela mesma, enquanto o marido não quer trabalhar. Não é a primeira vez, e, infelizmente, não será a última em que os negros são marcados com o estigma da preguiça. Não é assim que são vistos os nascidos na Bahia, o estado com maior concentração de afro-descendentes?

Ainda mais, ao fim da paródia, quando é dada a voz ao homem acusado de preguiça, ele simplesmente afirma: “A vida que eu levo é tudo de bom”. Isso apenas reforça os estereótipos já referidos. A voz do acusado aparece, mas ele não se defende, como se aquela fosse uma característica própria sua e como se ele tivesse de se orgulhar disso. Isso é sintomático do problema ao qual aludi anteriormente: a interiorização, por parte dos próprios negros, dos estereótipos a ele associados. Ironicamente, a música escolhida para ser parodiada traz um elogio a “um negão de tirar o chapéu” (é claro que há alguns problemas a ser analisados na canção original, mas isso é assunto para um outro trabalho). Cabe aqui a reflexão de Fanon: “O problema é saber se é possível ao negro superar seu sentimento de inferioridade, expulsar de sua vida o caráter compulsivo, tão semelhante ao comportamento fóbico.” (Ibid. p. 59)

Temos aqui uma relação ambígua. “As absorventes” não conseguem se afastar dos personagens negros (pelo menos metade das apresentações delas na TV Xuxa teve personagens negros), mas sempre os representam dentro dos estereótipos e estigmas já mostrados. As palavras de Stuart Hall auxiliam a pensar essa questão:


"Em terceiro lugar, devemos ter em mente a profunda e ambivalente fascinação do pós-modernismo pelas diferenças sexuais, raciais, culturais e, sobretudo, étnicas. Em total oposição à cegueira e hostilidade que a alta cultura européia demonstrava, de modo geral, pela diferença étnica - sua incapacidade até de falar em etnicidade quando esta inscrevia seus efeitos de forma tão evidente –, não há nada que o pós-modernismo global mais adore do que um certo tipo de diferença: um toque de etnicidade, um "sabor" do exótico e, como dizemos em inglês, a bit of the other (expressão que no Reino Unido possui não só uma conotação étnica, como também sexual). Em seu ensaio "Modernismo, pós-modernismo e o problema do visual na cultura afro-americana", Michele Wallace acertou ao indagar se esse reaparecimento de uma proliferação da diferença, de um certo tipo de ascensão do pós-moderno global, não seria uma repetição daquele jogo de "esconde-esconde" - que o modernismo jogou com o primitivismo no passado - e ao indagar se esse jogo não estaria sendo novamente realizado às custas do vasto silenciamento acerca da fascinação ocidental pelos corpos de homens e mulheres negros e de outras etnias. Devemos indagar sobre esse silêncio contínuo no terreno movediço do pós-modernismo e questionar se as formas de autorização do olhar a que esta proliferação de diferença convida e permite, ao mesmo tempo em que rejeita, não seriam, realmente, junto com a Benetton e a miscelânia de modelos masculinos da revista The Face, um tipo de diferença que não faz diferença alguma." (HALL, 2006 p. 319-20)


Desde já pedindo perdão pela citação demasiado longa, mas necessária, digo que esse parágrafo explica-se por si mesmo. Acrescento apenas que a dupla de comediantes se enquadra muito bem nesse movimento (pós-moderno) ambivalente. Parece-lhes necessário mostrar a diferença, mas a única coisa que elas trazem de fato é essa “diferença que não faz diferença”. O movimento é parecido àquele explicado por Homi K. Bhabha em O local da cultura: a criação dos estereótipos se daria justamente nesse contexto de fascínio que demanda afastamento, de desejo mesclado com a repulsa.
Quer me parecer, portanto, que esse tipo de representação cria um ambiente favorável para a criação e perpetuação de estereótipos. Não pretendo listar aqui medidas que desagravariam a apresentação das "absorventes", que a tornariam menos problemática. Ressalto, porém, que a repetição desse tipo de representação num programa infanto-juvenil em pleno sábado de manhã apenas ajuda a perpetuar nas mentes de crianças e pré-adolescentes estereótipos e preconceitos que, na verdade, nos cumpre extirpar. A emissora demonstra, assim, sua falta de engajamento com movimentos que não são recentes e que ganham cada vez mais força, no sentido de retirar pechas da imagem tanto do negro quanto da mulher.


REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998
FANON, Frantz. Pele negra, mascaras brancas. Salvador: Edufba, 2008
HALL, Stuart. Que “negro” é esse na cultura negra? In: SOVIK, Liv (org.). Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2006
SODRÉ, Muniz. A diferença e a mídia. In: Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Em que planeta vive a casseta?

No último dia 18 fomos agraciados pelo "Casseta e planeta", da Rede Globo de Televisão com um quadro no mínimo instigante. Vimos ali uma representação perjorativa e ridicularizadora do presidente eleito dos Estados Unidos, Barac Obama. Na peça, apresentou-se um Obama festeiro, que transforma a cobertura da casa branca numa lage típica das casas dos morros e favelas brasileiros. Isso não se trata de humor, trata-se de desrespeito.

No primeiro post deste blog comentei sobre a representação do negro. Hoje, dia da Consciência Negra, vejo-me obrigado a repetir o assunto porque, ao que parece, alguns ainda não entenderam a importância dele. No tipo de representação feita pelo "Casseta e planeta", não se está apenas desrespeitando uma autoridade (o presidente eleito dos EUA), mas também (e mais grave ainda, no nosso contexto cultural) está-se estereotipando o negro como pobre, como deselegante, como o que habita em "cafofo", que é como eles chamam o quadro ("No cafofo do Obama",). Aliás, essa referência explícita à Casa Branca com "cafofo", colocando essa fala na voz do Obama por eles criado, suscita algumas perguntas: por que, em todos esses anos, apenas quando um negro ocupa a Casa Branca ela é chamada de "cafofo"? Porque a brincadeira não poderia ser feita com nenhum dos brancos que ali habitaram? Será porque nossos estereótipos internalizados não aceitariam isso? E por que aceitá-lo com um negro?

Ainda há a questão da referência a Osama Bin Laden, sendo associado a Barac Obama. Quanto a isso eu sinceramente "prefiro não comentar", para usar um bordão da própria emissora. Não comento porque acho um ultraje, a ser respondido em tribunais e não em posts num humilde blog soteropolitano.

O que espanta é que um afro-descendente - tido como tão inteligente - como o é Helio de La Peña se preste a um papel desses. Chega a dar o que pensar quanto à conscientização das pessoas, e falo aqui principalmente dos próprios afro-descendentes, com respeito ao problema que é sua representação nos meios midiáticos e ao imaginário que isso acaba criando.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

CQC e o neurocirurgião

O "Top Five"(quadro do programa CQC da Band que traz cenas curiosas de outros programas da TV aberta e fechada) da segunda-feira, 27/10/2008, apresentou em primeiro lugar a fala de um neurocirurgião. Dizia ele: "Quatro horas toma um café - os ingleses até tomam chá: coisa de boiola..." E eu aplaudo a esse neurocirurgião. Nessa única frase ele consegue fazer o que ninguém até hoje havia conseguido: estabelecer uma atitude que é comum a todos e tão somente aos gays. E mais, quem sustenta a indústria de chá no mundo todo são eles. Mas como se não bastasse, ele continua: "...chá, inclusive, eu acho meio brochante..." Muito bem, eu só não entendo como a Inglaterra ainda tem população.

A fala desse neurocirurgião, cujo nome foi preservado, é, como se nota, carregada de preconceitos. Primeiro contra os gays. Depois, contra todos os que tomam chá. Depois, loucura das loucuras, contra o próprio chá, coitado, que leva fama de brochante. Isso, vindo de alguém que não entende do assunto até que passa. Mas um médico, que sabe que cada chá tem uma composição própria, que sabe (deveria saber) que a fitoterapia tem tratado doenças, inclusive impotência, através das ervas medicinais, e que tem influência sobre as pessoas quanto a esse tipo de assunto, deveria ter mais cuidado com o que diz, especialmente na televisão.

Mais interessante ainda é a recepção dessas declarações pelos apresentadores do CQC. Eles ridicularizam a opinião do neurocirurgião, anulando assim as observações amalucadas dele. Mostraram que é possível fazer do humor uma forma divertida de ser politicamente correto. A atitude deles deveria ser seguida por outros programas humorísticos. Ao invés de ridicularizarem as minorias, deveriam fazer de suas piadas uma forma de anular os preconceitos e discriminações dos grupos hegemônicos.

sábado, 25 de outubro de 2008

TV Xuxa e a perpetuação de estereótipos

Infeliz. Eis como considero a apresentação da dupla "As absorventes" no concurso de paródias da "Tv Xuxa" do sábado, 4 de outubro de 2008. Como foi exaustivamente repetido após a apresentação das meninas, elas são boas comediantes. A paródia foi bem feita. A intenção da apresentação foi humorística. E elas são excelentes atrizes.Mas não posso deixar de fazer uma ressalva, aliás, da maior pertinência: a repetição de estereótipos com respeito à representação do negro. Uma das garotas aparece pintada de preto, com a boca excessivamente vermelha e uma peruca de cabelos desgrenhados. É a síntese da ridícula representação do negro perpetrada e perpetuada no decorrer dos séculos. Esse tipo de figura negra padroniza e coisifica a etnia. Foi uma escolha muito infeliz, mas que talvez revele um imaginário que perpassa nossa mente e nosso discurso e talvez nem percebamos.

Para piorar ainda mais as coisas, acrescento à minha análise dois elementos: a representação masculina e a própria paródia. Pensando tudo isso como um único conjunto, temos uma negra (estereotipada até o limite, conforme explanei acima) sendo detratada e tendo atribuídas a si características negativas (odores desagradáveis nas axilas, flatos) por um homem de pele clara. Em outras palavras, a mulher negra sendo maltratada pelo homem branco. Não sei, mas isso se parece muito com uma situação que deveria ter sido extinta em 13 de maio de 1888. Vimos ainda, em resultado da escolha dos personagens a ser representados, o homem branco como aquele que traz "civilidade" (é ele quem aconselha: use talco pra chulé). E mais uma vez todas as qualidades negativas são atribuídas ao negro.

Destaco também o paulatino apagamento da voz feminina e negra. Não lhe é dado falar, pois sua voz não tem importância, o que apenas reforça o processo de coisificação, já aludido. A fala pertence apenas à representação masculina e branca. Não há direito de defesa. Em certo sentido, ainda bem, já que, se considerarmos o conjunto, a única representação verbal que poderíamos esperar da personagem negra seria o caricatural português "estropiado", cheio de sons guturais, como é comum em estereótipos desse tipo.

Não pretendo listar aqui medidas que desagravariam a apresentação das "absorventes", que a tornariam menos problemática. Ressalto, porém, que a repetição desse tipo de representação num programa infanto-juvenil em pleno sábado de manhã apenas ajuda a perpetuar nas mentes de crianças e pré-adolescentes estereótipos e preconceitos que, na verdade, nos cumpre extirpar. A emissora demonstra, assim, sua falta de engajamento com movimentos que não são recentes e que ganham cada vez mais força, no sentido de retirar pechas da imagem tanto do negro quanto da mulher.